• Gabriel Soares

Tim Maia: gênio do riso e filósofo do corno


Nos primeiros meses de pandemia eu me fechei no meu apartamento. As medidas mais duras de confinamento eram tomadas e ninguém sabia muito bem o que viria a seguir. Lembro que naqueles primeiros meses de prisão domiciliar eu redescobri um gênio que até então só conhecia nos lugares-comuns, nas suas músicas, nas histórias que pintavam o imaginário coletivo de nós, brasileiros. Quando, numa noite que não conseguia pegar no sono, abri o Youtube no celular e dei play numa das entrevistas de Tim Maia para o Jô Soares, a madrugada toda se esvaiu sem eu me dar conta, e só fui capaz de desconectar quando já amanhecia. Me diverti tanto com Tim e com as suas histórias! Nos dias que se seguiram eu tinha um programa especial que animava as noites da minha quarentena: assistir todos os seus vídeos disponíveis online. Vi tudo, todos os shows, todas as entrevistas que estão hoje na internet, na íntegra. Revi algumas delas agora, antes de escrever esse texto, e o entusiasmo que se segue a cada gargalhada que ele me arranca naturalmente continua com seu poder persuasivo inabalável. A alegria no enfrentamento da existência que Tim Maia praticou apazigua qualquer dor da vida. Seu carisma é imediato, sua sinceridade contagiante, e seu amor-próprio soberano, invejável. Um gênio feliz, sem dúvida, que pela caricatura que sempre lhe impuseram passou despercebido para os desatentos, mas a sua filosofia existencial é clara: experimentar a vida sem grilos. Tim Maia era um hedonista profissional. Isso não o impedia de sofrer, nenhum hedonista está livre dos sofrimentos da vida. Mas o hedonista não idolatra o sofrimento, não encontra no sofrimento uma virtude, não sacraliza a dor, ao contrário, encontra na dor uma fatalidade a qual todos estamos sujeitos, e na transição reativa, busca a superação, o caminho ultrapassado que vislumbra a alegria outra vez, sempre como norte e bem maior da existência. Numa das clássicas entrevistas disponíveis no Youtube, vemos Tim Maia sentado no banco traseiro de um conversível passeando pelo Rio de Janeiro. Com o corpo esparramado e o braço que parecia abraçar um segundo ocupante invisível, Tim filosofa enquanto o vento que entra no carro sem capota faz seus mullets dançarem na nuca. “Já sofri em dias maravilhosos como esse dia de hoje aqui, assim, mas sofrendo tanto que não dava nem pra perceber esse dia perfeito... Percebia, mas o coração não deixava você sentir a grandiosidade que é a natureza em si. Eu já passei várias vezes por essa estrada aqui chorando, doidão, e hoje eu to aqui tranquilo né, assim, relax, sem o coração apertado”. Em outra entrevista lhe perguntam se ele acredita em vidas extraterrestres. Ele então faz lembrar das Viagens de Gulliver de Jonathan Swift. “Eu acredito que pode ter civilizações minúsculas, imagina, eu com meu pé agora, acabo de matar vários homenzinhos. Imagina um peido então, plééhh! Matava todo mundo. Olha, que existe alguma coisa além da TV Globo, isso eu sei que existe”. Em outro vídeo, lhe perguntam se existe o amor. “Amor? Do Édipo pela Jocasta? O amor é um lance que é filosófico. Não existe amor, amor é o sentimento. Existe a cabeça, existe a mente, e a mente se envolve com aquilo”. Aí então Tim Maia abre terreno para entrar na, talvez, sua maior especialidade, a filosofia do corno. Como nenhum outro pensador, Tim Maia sabia aliviar o peso das traições e das corneadas com bom-humor e leveza que tornavam a angústia do corno algo totalmente desprovido de racionalidade e de importância, aniquilando assim seu efeito mortificante. Sempre usando o gesto de colocar atrás da cabeça os dois dedos da mão em forma de chifre, não há uma entrevista sequer que ele não aproveite a melhor oportunidade para discorrer sobre o tema e, como orador que sabe estar no pleno exercício de cativar e conquistar seus interlocutores, hipnotiza a todos com sua filosofia. “Dor de corno não tem nada a ver com amor. Aí você passa o filme, o cara hummm!, metendo na tua mulher, tu vê o cara metendo na tua mulher, tu vê o pau do cara, tu vê ela abrindo pro cara, isso não tem nada a ver com amor, muito pelo contrário, isso aí é o ódio. Amor mesmo é aquele do esquimó que dá a mulher dele pro cara comer porque tá frio pra caramba. Isso é que é amor”. Não há um só vídeo que Tim Maia esteja mal-humorado a ponto de não ser capaz de rir. Mesmo naqueles mais difíceis, nas entrevistas que era obrigado a dar de ressaca, rouco, com febre, em todas elas, ele nunca abdicava do exercício de fazer rir como um maníaco do riso que buscava a todo instante o júbilo do interlocutor e não parava até que conseguisse sufocá-lo na risada. Na primeira oportunidade embalava alguma das piadas de seu arsenal que tinha de cor na cabeça. “Você sabe aquela piada do cu ou não? Todo mundo queria ser chefe, aí a cabeça falou: quem vai ser chefe daqui sou eu. Porque eu que penso, eu que determino as coisas. Aí os membros superiores falaram: não, nós é que vamos ser chefe porque nós é que pegamos as coisas. Aí os membros inferiores: não, nós é que vamos ser chefe porque nós somos as pernas, nós andamos, nós corremos atrás, se não fôssemos nós ninguém conseguia fazer nada. Aí chegou lá atrás um cara e falou assim ó: eu que sou chefe. Quem era? Era o cu. Pô, mas você é o cu rapaz, como é que você vai ser o chefe? Quer ver? Eu fecho a porta aqui meu irmão, não anda ninguém, as pernas ficam tudo bamba, os braços começam a não pegar porra nenhuma, e a cabeça começa a ficar mal, o olho já não vê nada. Aí o pessoal falou: é memo é? Então perguntaram de novo: quem é o chefe? É o cu”.

A minha entrevista predileta é a que Tim Maia grava durante o café da manhã na sua própria casa. A entrevistadora é meio inexperiente e se percebe que as suas perguntas são ingênuas e até juvenis (pergunta se é verdade que ele chegou a trabalhar num necrotério nos Estados Unidos), mas Tim Maia em nenhum momento a menospreza, ao contrário, artista consagrado e gente fina, ele aceita gravar com o rosto inchado, de ressaca, o cabelo molhado revela um banho gelado que deve ter tomado minutos antes para conseguir gravar, na mesa da cozinha em que Tim e a jovem entrevistadora estão sentados há pãezinhos e canecas de café. A entrevista logo se transforma numa conversa prazerosa que emana simplicidade e naturalidade. Ele consegue a primeira gargalhada da repórter quando começa a imitar João Gilberto cantando baixinho assim, quase impossível de escutar. “Eu acho o Chico Buarque também uma boa pessoa, um bom cantor, só que ele canta um pouquinho baixinho né”. A repórter sente a tranquilidade da conversa e arrisca entrar num tema que para qualquer artista enjoado poderia causar um climão, e resolve lhe perguntar sobre a experiência com a seita Racional. Tim Maia ri e começa falando. “Dos 30 aos 40 é dose pra leão. Eu entrei numa fase mística, mas foi tudo rápido, e já saí, já tô numa boa”. Então prepara uma dissertação curta e fatal contra todas as religiões, dando razão a minha especulação: Tim Maia era mesmo um nietzschiano. “Eu vou ser franco com você querida, porque eu não gosto de ficar mentindo. Eu acho que qualquer experiência em qualquer seita deixa você grilado. Seja qual for a seita, seja qual for a religião. Os animais não pensam em religião. Os animais não rezam, nem se ajoelham. O animal só ajoelha pra dormir. O camelo, quando ele quer dar uma dormidinha, ele ajoelha. Eu acho que qualquer experiência religiosa é prejudicial ao ser humano. Agora, qualquer experiência de extravaso é benéfica ao ser humano. Gritar, cantar, dançar, correr, fazer bastante física, futebol, baile de fantasia, um gorózinho no fim de semana”. Na deliciosa entrevista com Bruna Lombardi, Tim cativa com a sua doçura inebriante fazendo com que sua autoconfiança jamais possa ser confundida como um escudo arrogante. A sua soberba é celebrada como força natural. “Eu gosto de mim pra caramba... das minhas atitudes”. Ainda sobra tempo para ironizar aquele que o Brasil chama de rei. “Roberto Carlos? Esse rapaz, eu lancei ele, hehe. Ele não fala mais comigo, é uma pena”.