• Gabriel Soares

Somos latinos?


Recebi o link de Rompan Todo de vários amigos que sabem da minha paixão (obsessão) pelo rock da América Latina. A todos eu agradeci dizendo que já tinha assistido, mas pensei que talvez fosse melhor ter mentido, afinal, nada mais anti-clímax que derrubar o entusiasmo de quem traz uma boa nova. De todo modo, fiquei feliz em saber que relacionam a minha pessoa com a música latina. Nos últimos anos conheci muita música dos nossos países vizinhos e claro que, como brasileiro, ainda tenho muito por conhecer. Nesse sentido, a série da Netflix é mais do que profícua, sobretudo para descobrir músicas de países que ainda não botei meus pés e sei pouco ou quase nada, como o México e a Colômbia. Poderia falar aqui dos pontos polêmicos que tem gerado muita discussão principalmente na Argentina, mas não me prenderei muito a isso, só queria dizer que também tenho as mais diversas ressalvas quanto a escolha dos artistas, a importância dada pra cada um dentro da série, ainda mais quando Gustavo Santaolalla é o produtor executivo do documentário e a lista parece ser o seu ranking próprio do que foi mais relevante do rock latino. É impossível visar algum consenso quando se tem um projeto tão ambicioso e abrangente quanto o de catalogar cinco décadas de rock no continente. A mim, o que mais incomoda é a forma engessada e preguiçosa que a série documental – especialmente as da Netflix – se agarra. Entrevistas internas gravadas no presente, imagens de arquivo, trechos de clipes e apresentações ao vivo e volta para a entrevista interna. No terceiro episódio a forma se esgota por ser maçante, repetitiva e previsível. Seria muito mais interessante se tivéssemos alguém como Asif Kapadia dirigindo e explorando imagens raras como fez tão bem no filme da Amy Winehouse, se valendo de documentos inéditos que com certeza poderiam fazer da série um marco épico explorando a diversidade de vozes, causos e histórias sem fim. Para isso, um roteiro muito mais inteligente precisaria entrar em ação, com um fio condutor que fosse realmente capaz de dar liga à pluralidade das memórias. O que se viu, ao contrário, foi um roteiro deficiente que se esforçava para gerar uma conexão muitas vezes sem sentido entre os discos e as ditaduras que ocorriam nos diversos países, e uma confusão generalizada. Desde quando Victor Jara era roqueiro? Ao invés de buscar mulheres somente para engrossar a participação feminina entre os artistas comentados, não seria mais honesto assumir de forma mais enfática que o rock sempre foi um movimento machista e preconceituoso? Contar a história como ela aconteceu, sem maquiagens. A banda Virus não recebia vaias e o público não atirava objetos no palco simplesmente porque a sua música era diferente, como a série fez parecer, mas porque Federico Moura era gay e porque várias bandas (que inclusive estão no documentário) incentivavam esse comportamento homofóbico. Deixar isso claro seria muito mais eficiente para o público que o documentário claramente se dirige: as novas gerações. Do jeito que foi montada, a série – com esse formato antiquado e obsoleto – deve satisfazer totalmente apenas titios e titias do rock. Enfim, o que eu gostaria mesmo de falar é sobre a relação da América Latina com o Brasil. Nenhum artista do Brasil aparece no documentário. A propósito, somos latinos? No começo do mês gravei um podcast com o blog mexicano Songmess e comentei sobre o total desconhecimento do público brasileiro de artistas consagrados como, por exemplo, Gustavo Cerati, Spinetta, Charly Garcia. Esses nomes correm o risco de passarem batido até numa roda de bate-papo de músicos brasileiros. Muita gente simplesmente nunca ouviu falar desses nomes por aqui. São artistas que nunca tocaram na rádio, poucos fizeram ou fazem shows no Brasil. Não sei se nunca existiu o interesse da indústria fonográfica em enfrentar realmente essa barreira do idioma e investir na divulgação de músicas em espanhol em território brasileiro. Mesmo assim, a relação dos artistas latinos com o Brasil sempre existiu, apesar de pouco comentada, como Charly Garcia que namorou uma brasileira e germinou o Seru Girán na cidade de Búzios. Federico Moura do Virus recebeu seu teste positivo de Aids no Rio de Janeiro e antes chegou a gravar uma versão em português de Amor Descartable.

Dos artistas brasileiros, pelo menos uma banda certamente mereceria estar no documentário. Nenhuma outra banda de rock no Brasil foi mais latina e buscou o estreitamento dos laços com a Argentina e, consequentemente, nenhuma outra banda brasileira conseguiu até hoje um reconhecimento do público argentino como Os Paralamas do Sucesso. Se existe um embaixador do rock argentino no Brasil essa pessoa se chama Herbert Vianna. Aqui vemos um show no Luna Park, um dos lugares mais emblemáticos de Buenos Aires com participação especial de ninguém menos que Gustavo Cerati, que aparece com toda a buena onda do mundo e, ao terminar a participação, é saudado por Herbert como “che Gustavito”.

A relação dos Paralamas com a Argentina é antiga, e vem antes das regravações e versões em português de músicas do Soda Stereo, do Suis Generis, do Fito Paez, entre outros. Aqui eles tocam no estádio do Velez Sarsfield em 1992.

Aqui uma entrevista do Herbert mandando ver um castellano bonito.

Para se ter uma ideia do total desconhecimento de artistas brasileiros na Argentina, podemos ver o exemplo dos Los Hermanos. Apesar de haver esgotado ingressos em diversos estádios no Brasil meses antes, e do nome em espanhol, a banda tocou para uma plateia vip e sortuda (90% brasileiros como podemos perceber no minuto 24:34 quando o público puxa um coro “Ei Bolsonaro vai tomar no cu!”) na tarde do Lollapalooza em Buenos Aires, parecendo ser uma banda que estava começando a carreira. Esse show é um exemplo evidente da barreira que ainda existe entre a música do Brasil e a América do Sul, e vice-versa. Ao mesmo tempo, evidencia a força e a beleza do espanhol e do português que, apesar de serem línguas irmãs, têm, cada uma, particularidades especiais que as fazem únicas.

Há todo um universo maravilhoso de canções que vibraram nas mentes e nos corações de tantas pessoas na América Latina e que poderiam servir de inspiração para os nossos próprios momentos aqui no Brasil mas que infelizmente não conhecemos. O documentário Rompan Todo pode cumprir essa função de iniciação, sem dúvida, pode e deve servir de porta de entrada para uma investigação de uma galáxia sonora que existiu sem a gente saber. E claro, pode despertar a curiosidade para o que há de mais novo nas produções latino-americanas. Esse mini doc sobre a nova contra-cultura argentina é um bom exemplo de como a música latina está produzindo frutos interessantíssimos hoje em dia.

Eu tento fazer essa ponte da maneira que posso, e tenho incluído diversos artistas do indie latino na playlist “Eu sonhei que você voltava”. Aproveito muito também o contato do nosso selo Scatter Records e do meu amigo Pablo Hierro que tem me ajudado nessas conexões obsessivas que ando buscando com vizinhos e vizinhas que estão fazendo música no nosso continente. Tem sido uma oportunidade de descobrir cada vez mais novas músicas que alimentam novos sonhos. Aliás, aqui vai uma canção “para depois do sonho”, daquele que poucos fora das nossas fronteiras devem conhecer, “um tango argentino me vai bem melhor que um blues”.

Para terminar esse texto – que já vai se alongando mais do que deveria – deixo como sugestão uma música do El Culto Casero, banda querida de Asunción no Paraguay. Parafraseando de novo Belchior, esse que nunca esqueceu sua raiz latina: “é o novo, é o novo, é o novo, é o novo, é o novo... você que é muito vivo, me diga qual é o novo!”