• Gabriel Soares

Sociedade do Cansaço



Terminei de ler agora o livro Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, uma indicação do meu amigo Pablo Hierro e que me pegou no meio do lançamento do novo single da banda, A Tentação do Fracasso. A leitura do diagnóstico que Byung-Chul Han faz da sociedade atual do desempenho complementa de maneira precisa o raciocínio que desenvolvi no texto Ansiedade e barbárie estética”, cujo momento se dava justamente no lançamento do nosso primeiro single, Mesmo Coração. Naquele texto falei de uma ansiedade e uma inquietude sufocante que chegaram a me assustar e colocaram-me diante de um cenário inédito para mim até então. Passados mais de três anos sem lançar nenhuma música nova, fiquei envolto a novas dinâmicas e tive que aprender rapidamente a me posicionar e assimilar novos termos que agora dominam o mercado musical, além de mergulhar em estudos e investigações que envolvem desde o planejamento estratégico até a produção diária de conteúdos para as redes sociais e, claro, estar atento às mudanças das plataformas visando sempre a “maximização dos resultados”. Verbos como performar agora são lugares-comuns. “Veremos como a música vai performar na plataforma para entendermos quais passos devemos seguir nas próximas semanas”, me disse um parceiro ligado a distribuição de música. “Precisamos fazer uns testes de anúncios para entender melhor o público que devemos targetear”, me disse outro ligado ao marketing. “Prometo que a playlist entrega um número X de streams ao final do mês”, me falou um menino no DM do Instagram tentando vender uma inserção em sua playlist. E ainda cheguei a receber também uma proposta de permuta comercial de um artista, no caso, se eu colocasse o novo single dele na minha playlist ele imediatamente colocaria a minha track na sua e, no final do mês, mediríamos os resultados intercambiando os gráficos do nosso Spotify For Artists. O livro de Byung-Chul Han, escrito em 2010 – aos moldes da Sociedade do Espetáculo de Debord que foi escrito nos anos 60 – não corre o risco de se tornar datado, antiquado ou mesmo esquecível, como a maioria dos “conteúdos” produzidos nos dias de hoje, justamente porque estas análises permitem o aprofundamento, em detrimento da superficialidade fantasmagórica da maioria do que é produzido hoje em dia, cujo objetivo assumido é ser absolutamente raso, curto e que, de preferência, desapareça em 24 horas. É claro que o livro do sul-coreano se mostra mais atual do que nunca não apenas pelo seu aprofundamento, mas também por conseguir capturar com exatidão a dinâmica estabelecida nas sociedades onde o capitalismo se tornou mais do que um sistema econômico, mas uma cartilha de comportamento. “O hipercapitalismo transforma todas as relações humanas em relações comerciais. Ele arranca a dignidade do ser humano, substituindo-a completamente pelo valor de mercado”. No campo da música – que é o meu objeto de reflexão aqui nesse texto – é evidente que o valor artístico de cada canção lançada ao mundo se transforma dia-a-dia numa corrida por streams muito mais do que uma experiência contemplativa, essa tão cara a Byung-Chul Han. “O mundo perdeu sua alma e sua fala, se tornou desprovido de qualquer som”. Essa frase soa como a força de um porrete sobre os nossos telhados. Não há nenhuma dúvida que, para o mercado musical, a música em si não precisa mais ser ouvida. Ela é vista como número. Um curador de um grande festival, um influencer dono de uma playlist hypada, uma diretora de gravadora, uma blogueira caçadora de clickbait, enfim, para muitos players do mercado musical não é mais necessário ouvir música, basta ver o número de streams no Spotify para saber se vale a pena o interesse, basta abrir o vídeo no Youtube com o mute ligado para conhecer o número de views, basta acessar o Instagram e ver o número de comentários dos posts mais recentes para medir o tamanho do engagement do artista, em outras palavras, é suficiente ter uma conta premium no Chartmetric. Nessa dinâmica do desempenho, da performance, dos números, o resultado não poderia ser diferente. Artistas hoje passam mais tempo estudando e trabalhando formas e maneiras de melhorar o desempenho das suas faixas do que propriamente trabalhando nas questões artísticas delas: composição, arranjos, produção, mixagem, masterização. Isso vale não só para músicos, mas para todos da cadeia que envolve curadores, jornalistas, assessores de imprensa, críticos (alguns ainda existem), produtores etc. Essa corrida frenética para atrair a atenção de uma sociedade multitasking leva-nos ao ridículo, por exemplo, como a obrigação de criar sistematicamente legendas para os conteúdos que geram engajamento botando um ponto de interrogação no final de cada caption. Se alguém passa a seguir seu perfil, entre no perfil dessa pessoa e pegue algo pessoal e imediatamente mande um DM fazendo um comentário do tipo “Hey! Welcome, I love your dog by the way”. É isso o que ensina um dos principais canais de dicas para músicos/influencers de 2020.


Eu sigo praticamente todas essas dicas, consumo o conteúdo oferecido pelo casal do Burstimo e confesso que inclusive gosto do conteúdo do canal. Estou inserido até a cabeça nessa dinâmica que eu mesmo estou criticando. O ponto aqui não é fazer proselitismo do abandono das redes, do boicote total, mas, por outro lado, é na crítica que, ao menos, podemos sentir-nos menos idiotas se formos capazes de compreender a dinâmica e o panorama geral em que estamos inseridos. Esse é o primeiro passo para não ficarmos simplesmente girando a roda de hamster sem sequer saber que a estamos girando. No seu livro, Byung-Chul Han trata de enfermidades psicológicas como a depressão e a síndrome do burnout como as principais doenças da nossa era do multitasking e da hyperattention. Ele cita a crescente dinâmica da fragmentação das coisas e dos conteúdos que consumimos e vê nisso, somada a superabundância de informações e de produções, a causa da depressão e do esgotamento pela “pressão por desempenho”, e também essa sensação de má-digestão diante do consumo de tanta informação bombardeada diariamente que estufa, enche, infla o nosso interior de um completo vazio sem consistência. A epidemia do TDAH se caracteriza por essa rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. Havia uma expectativa de que a quarentena e o isolamento social fizessem com que as pessoas colocassem o pé no freio, que devolvessem a elas a oportunidade maravilhosa do demorar-se, enfim, nas coisas. Mas o que se viu, ao contrário, é uma sociedade cada vez mais doente e incapaz de desfrutar da calma. Que música hoje consegue ser ouvida com a atenção e a profundidade sagrada que toda obra de arte merece? Em que momentos ouvimos música simplesmente para ouvir música, e não para distrair-nos enquanto fazemos mil e uma coisas diferentes? A cultura, diz Byung-Chul Han, pressupõe exatamente o contrário dessa corrida frenética, ou seja, pressupõe um ambiente onde seja possível uma atenção profunda, demorada. “Só o demorar contemplativo tem acesso também ao longo fôlego, ao lento. No estado contemplativo, de certo modo, saímos de nós mesmos, mergulhando nas coisas. Como dizia Madame Cézanne, a paisagem pensa-se em mim, eu sou sua consciência. Sem esse recolhimento contemplativo o olhar perambula inquieto de cá para lá e não traz nada a se manifestar”.



Trazendo essa reflexão para a música, podemos assumir que hoje em dia ouvimos música de forma inquieta, viciados no botão de skip, no shuffle e no F5. Raros – e por isso mais preciosos ainda – são os momentos que conseguimos nos desligar totalmente ao ligar o som e entrar no universo de uma canção. “Perdemos toda a capacidade de admiração”, diz Byung-Chul Han na última página do seu livro. A constatação ao assumir o cenário desolador em que nos encontramos, mais do que jogar-nos na apatia e na aceitação, pode inclinar-nos à negação, no movimento dialético ensinado por Hegel que é capaz de toda transformação. O último parágrafo da Sociedade do Cansaço termina com essa rebeldia libertadora que anda nos faltando, com o elogio do dionisíaco, com a potência afirmadora de Nietzsche, com um chamado urgente para que pratiquemos a transvaloração mais uma vez. “Já é tempo de rompermos com essa casa mercantil. Já é hora de transformar essa casa mercantil novamente numa moradia, numa casa de festa, onde valha mesmo a pena viver”. Que a música volte a ser música. Podemos sonhar?