• Gabriel Soares

Rec, Play e Repeat (o tempo na música)


Na cidade onde passei a maior parte da minha adolescência existia uma rádio pirata. Uma vez liguei para pedir uma música, era bem cedo, e também era domingo. O telefone tocou muitas vezes e quando já estava quase desligando uma voz atendeu, rouca como se fosse um cigarro falando. A rádio não abriu ainda, disse, e aí desligou na minha cara. Nessa época eu ainda não bebia e acordava cedo aos domingos. Ouvia muito a rádio com meus amigos, cada um na sua casa. A gente tinha o costume de gravar a nossa participação em fitas k7. Era só apertar play e rec ao mesmo tempo. Entrávamos ao vivo, dedicávamos a música para um amigo ou para alguma menina que queríamos impressionar e depois, antes de dormir, podíamos ouvir o programa inteiro gravado na fita. Lembrei dessa época porque agora estou atualizando a minha playlist no Spotify. É claro que os tempos são outros, mas essa atividade de investigar músicas novas, a imaginação que é aguçada numa sequência organizada de plays, tudo isso me fez pensar na minha adolescência e no radiozinho que eu ouvia e gravava. Por muitos anos a programação daquela rádio pirata estimulou os meus sonhos e também dos meus amigos da cidade pequena. Muitas bandas se formavam e ensaiavam na esperança de um dia ouvir a própria música tocando nela. O dono da principal rádio concorrente espalhava o boato de que o sinal clandestino era muito perigoso, podia derrubar até aviões, dizia, mas a gente quase não via passar um avião sequer sob as nossas cabeças, e claro, nunca deixamos de ouvir por causa disso, ao contrário, a transmissão pirata em pouco tempo se transformou em líder de audiência na cidade. Às vezes eu passava horas ouvindo a programação para gravar na minha fita virgem as músicas que eu mais gostava. A relação do tempo com a música era diferente, e até dar o repeat era uma tarefa que exigia mais do que alguns segundos; o tempo que se esperava voltando a fita aumentava o prazer e a expectativa de ouvir a música outra vez. Pensando no que tenho hoje nas mãos, essa facilidade impressionante de adicionar numa programação músicas dos mais diferentes lugares do mundo, não tenho dúvidas de que estou vivendo um sonho de adolescente. Quando começaram a vender os cd’s virgens era possível organizar uma lista de até doze ou treze canções, dependendo da duração das faixas. Depois chegaram os CD’s com capacidade exponencialmente maior; não pensávamos mais em minutos, mas em megabytes. O espaço disponível numa fita ou num CD-R que antes era medido pelo tempo (duração) agora se transformava em espaço físico (virtual). O CD desapareceu com os primeiros mp3 players que tinham o mesmo tamanho dos antigos bichinhos virtuais, até que os iPods cederam lugar para os smartphones e aí chegamos onde estamos agora. A playlist que estou atualizando já conta com mais de nove horas, e o fato que impressionaria a mim mesmo quando tinha 15 anos é que essa duração e esse espaço agora ficam suspensos numa nuvem, e não é preciso mais nem possuir os arquivos. Hoje se escuta música de uma maneira muito melhor do que quando eu era adolescente, tenho certeza. Se antes eu ouvia nas caixinhas chiadas do rádio, agora posso ouvir em fones de ouvido canções com qualidade loseless, com detalhes tão ricos e vívidos que a experiência de uma audição acaba sendo muito mais rica e imaginativa que antes. Ao mesmo tempo, a massa de tracks que inunda diariamente as plataformas e a pressão para o lançamento ostensivo de novas músicas estão gerando uma corrida maluca entre compositores, produtores e ouvintes. Sinceramente não sei se o shuffle será capaz de nos salvar da tenebrosa barra de rolagem que vai jogando pra baixo tudo o que não é mais novo em poucos dias. Essa espécie de “falsa consciência do tempo”, como chamou Debord no seu livro A Sociedade do Espetáculo, se sente mais do que nunca em nossa época absurdamente fluída. Por enquanto ainda fico com a sensação de estar vivendo um sonho que se tornou possível, mas não sei até quando vamos continuar tendo essa possibilidade de ouvir músicas novas, músicas antigas, reunir o nostálgico com o contemporâneo, não sei... não sei até quando vamos poder ouvir tudo. Tomara que não inventem a música que desaparece em 24 horas.