• Gabriel Soares

Qué Se Puede Hacer Salvo Ver Películas?


No domingo que antecedeu a gravação da nossa session (que estreia essa semana) levei o Conrado para aquela que tem sido praticamente a única saída da cela onde vou cumprindo minha quarentena: a corrida no Parque do Ibirapuera. No caminho fomos ouvindo a rádio do Tears For Fears no Spotify conectado ao som do carro e ele lembrou do filme The Breakfast Club. Quando acabei de correr e esperava ele voltar do seu périplo pelos lagos artificiais, fiquei tentando reviver na cabeça as cenas desse filme que, de algum modo, me traziam sensações antigas e empoeiradas da memória. Lembrava mais de mim e do ambiente onde eu vivia quando vi o filme pela última vez do que do filme em si. O objeto-gatilho da memória involuntária, tal qual a madeleine de Marcel na Recherche de Proust, se fazia esquecer por um momento. Enquanto eu revivia as sensações perdidas misturadas com os hormônios liberados depois da corrida, um vento fresco soprou e fez meus cabelos dançarem no ritmo dos galhos mais altos das árvores que balançavam. O céu estava laranja escuro, banhado pelo cinza que desvanecia aos poucos, desarmando a tempestade que desistiu de acontecer. Gravamos a session durante a semana, o Conrado voltou pra Birigui e, quando eu estava sozinho outra vez aqui no apartamento, lembrei do filme e coloquei pra baixar no Pirate Bay. Logo quando o filme começou – os pais levando os alunos no sábado de manhã para cumprirem a punição no colégio vazio – senti um apaziguamento e estiquei minhas pernas no sofá, como se na tela estivesse passando as fitas VHS da minha própria vida capturada pela câmera Panasonic que eu gravava com meus amigos. Lembrei do dia exato que tinha visto esse filme, o Clube dos Cinco, traduzido pela sessão da tarde da Globo dos anos 90. Lembrei do som da vinheta que anunciava a propaganda, do intervalo que eu corria pra preparar meu Nescau e meu misto quente. Lembrei do azulejo antigo da cozinha que as reformas iriam fazer desaparecer para sempre. Lembrei da textura do tecido do sofá que eu odiava porque pinicava. Lembrei de vários outros detalhes que são irrelevantes pra qualquer um menos pra mim. Quando o filme chegou na parte que os alunos fumam maconha e começam a dançar eu parei de lembrar, talvez tenha visto o filme só até ali na primeira vez, não sei. Mas a memória, que trabalhava sem parar enquanto eu olhava para as cenas na televisão me fazia pensar também nas coisas que eu inventava naquela época, os universos imaginários que eu criava pra mim mesmo, a invenção das festas que eu nunca fui, as namoradas que eu nunca tive, os momentos que eu só vivenciei na imaginação. De alguma forma eles existem porque eu me lembrei deles, imagino. Quanto de nós mesmos está guardado nos filmes que já vimos? Será que um dia eu também lembrarei desse momento de isolamento social, desses dias de quarentena sem fim revendo os filmes que estou vendo agora?



Deixo aqui alguns filmes que assisti nesses últimos dias. Os filmes que serão memória involuntária em algum tempo futuro. Tomara.