• Gabriel Soares

Pirata de Filmes

Sempre fui um pirata de filmes na internet. Nunca acreditei na propaganda que dizia que piratear filmes era o mesmo que roubar. A cada filme pirateado eu enriquecia, é verdade, mas não financeiramente. O que seria da minha formação intelectual se, na minha adolescência, eu não tivesse acesso aos mundos diversos e tão distintos da realidade da cidade pequena que me cercava? Sem salas de cinema, o acesso aos filmes começou com os VHS que meus pais alugavam. Depois abri uma conta na locadora, eu mesmo, quando começava a transição da fita para os DVD’s. O catálogo de cinema alternativo era pequeno e em pouco tempo eu já tinha visto tudo. O hábito dos downloads começava a expandir meu universo em possibilidades cada vez maiores, e baixar filmes independentes se tornava mais que um vício, eu fazia dessa atividade um exercício. Via filmes do Irã, do México, da Romênia, do interior da Dinamarca, das Filipinas, da Argentina. Lembro da primeira vez que vi Close-up do Kiarostami. Aquela fotografia marrom e pálida é a mesma que a minha memória pinta quando trato de imaginar Teerã, a cidade que nunca pus os pés, mas que conheço como poucos. Os filmes pirateados me mostravam outras culturas, outros estilos, outras dinâmicas, outras mentalidades. Sempre que eu queria escapar da mentalidade tacanha e estreita do ambiente que me encerrava, eu dava play num filme que me transportava pra bem longe. Assistia pelo monitor do computador, depois pelo notebook, adaptava cabos RGB para conectar às TV's que ainda eram de tubo, depois veio a TV digital, o cabo HDMI, os home theaters com seus poderosos subwoofers, as plataformas de streaming. A oferta de filmes na internet hoje é imensa. Quando estou em cidades grandes ainda vou ao cinema, compro ingressos para estreias, pago mensalmente minha assinatura em várias plataformas online, mas nunca deixei de baixar filmes. Não há prazer que se compare ao garimpo, a investigação e a pesquisa de títulos alternativos que exigem mais que a preguiça de se contentar com o catálogo oferecido pelos curadores dos sites. Nada mais estimulante que um filme difícil de ser encontrado, que vai exigir buscas pelo Google de outros países, filmes que me obrigarão a acionar o simulador VPN para forjar um IP de um determinado país, ou mesmo aquele filme que só conta com um único seed e que demorará semanas pra chegar por completo. No mês passado, por exemplo, assisti o documentário sobre Pedro Lemebel, um artista/escritor chileno apaixonante. Tive que acionar o simulador de IP para entrar no site Ondamedia, que disponibiliza o filme somente em território chileno. Para todos os efeitos, durante a exibição do filme, eu estava no Chile. A sensação de estar cumprindo uma agenda própria, de não engolir somente a seleção imposta pelos algoritmos, o movimento constante de investigação de novos diretores e diretoras pelo mundo, tudo isso me instiga, me estimula e mantém meu exercício contraventor. Poucas vezes a máxima de Nietzsche se faz sensata como nesse caso. “Se não tens aquilo que necessitas para viver, não deixes de roubá-lo.” O conhecimento oferecido pelos filmes não deveria se manter aprisionado. Romper as artimanhas impostas para acedê-lo é um instinto de sobrevivência natural para aquele que se convenceu da necessidade de mergulhar na pluralidade de outras realidades. Não fosse exatamente assim, baixando filmes, como é que eu assistiria o filme sobre Edvard Munch que há muito buscava? O arquivo estava ali. Downloaded 100%. 12.5 GB. Qualidade magnífica. A experiência que o filme proporcionava – depois das quase quatro horas de exibição – era agora minha. E não preciso dizer que, nem por um segundo, deixei-me distrair com a ideia de culpa que deve perseguir aquele que se considera um ladrão.