• Gabriel Soares

O que os felizes podem aprender com os tristes?


Foi numa dessas tardes do novo ano que vi An Elephant Sitting Still, do diretor chinês Hu Bo. Acho que foi no primeiro dia de janeiro. Um dia morno, silencioso e hesitante como sempre são esses dias. Dessa vez não estava de ressaca, mas a lassidão do verão às duas da tarde amolecia meu corpo, tornava a saída lá fora uma aventura sem sentido, e eu podia entregar-me ao sofá sem culpa pelas próximas quatro horas que o filme exigia. Fiz descer as persianas, configurei o ar-condicionado na temperatura mínima possível, e me ajeitei nas almofadas como um réptil que encontra a posição perfeita e evita qualquer movimento a fim de manter a temperatura corporal estabilizada. Dei play. Ótimo, pensei, o filme se passava no inverno, em alguma cidade chinesa que fazia muito frio, a correção de cor explorava tons acinzentados e aquela crueza inicial me refrescava, deixava meu delírio interpretativo fantasiar com uma transcendência para o inverno. Geralmente poucos minutos bastam para saber se vou gostar de um filme ou não. Claro que existem exceções, equívocos de pré-julgamentos, decepções, surpresas, mas, na maioria das vezes, esses minutos iniciais acabam sendo fiéis e correspondentes à minha expectativa. Em que momento me dei conta que o filme do chinês Hu Bo me roubava a realidade em que eu estava de um jeito único? Em que minuto percebi que o projeto inofensivo de dominar o tédio de uma tarde no primeiro dia do ano com um filme que eu havia baixado se transformava numa revelação? Simplesmente acontece. De repente eu atinava que estava diante de uma obra maior, no meio de uma dessas fruições artísticas que desvelam toda a poeira da realidade com força cristalina e fazem abrir um universo único, particular, novo: o da obra-prima. Mesmo nos filmes que mais gostamos, naqueles que mais nos enchem de apaziguamento, o que fazemos, nesses casos, é perdoar as vacilações, as pequenas falhas, ignoramos os equívocos sutis em detrimento do todo a fim de formarmos uma boa imagem geral do que acabamos de assistir. Nesses grandes filmes, gostamos das tentativas, valorizamos o esforço e a audácia, louvamos as intenções, mas somente quando estamos diante de uma verdadeira obra-prima revelada, é que sentimos esse enigmático estupor contemplativo capaz de nos fazer experimentar dessa avalanche de sensações que instigam, estimulam, iluminam e preenchem nosso ser com um estado de espírito difícil de ser descrito com palavras. Esperei algumas semanas para escrever esse texto, para contar um pouco sobre as minhas impressões desse filme porque não queria prender a experiência que tive em sintaxes, retóricas, nem em nenhum outro recurso da linguagem; por muitos dias só quis lembrar da obra que vi sem tocá-la. Nesse mês de janeiro também andei viciado nas linhas autobiográficas da Simone de Beauvoir, e foi lendo agora um dos seus livros de memórias que encontrei uma frase que me animava a finalmente escrever algum comentário sobre o filme. “Havia um modo de expressão que Sartre colocava tão alto quanto a literatura: o cinema. Foi vendo passarem imagens numa tela que teve a revelação de necessidade da arte e descobriu, por contraste, a deplorável contingência das coisas dadas”. Alguns podem dizer que An Elephant Sitting Still conseguiu a proeza de revelar a realidade imediata, que seu universo ficcional é tão competente que esquecemos a divisão entre realidade-ficção, no entanto, no filme de Hu Bo não cabe o dilema sobre se a arte imita a vida ou vice-versa, seu filme ultrapassa essa dicotomia e nos lança a todos, espectadores, personagens, cinema e realidade, num só universo indivisível. Viramos sujeito-objeto. Alguns personagens do filme se suicidam, e o próprio diretor Hu Bo acaba se matando depois de terminadas as filmagens. O que eu, hedonista radical, amante dos prazeres e defensor de um projeto existencial afirmativo da vida, posso aprender com esses personagens todos fodidos e aniquilados nesse redemoinho de realidade-ficção pelas lentes de Hu Bo? O que os felizes podem aprender com os tristes? A tristeza sem saída capturada pelos quadros em movimento de Hu Bo prova que a sublimação artística é a única invenção humana capaz de transformar a melancolia crua em potência. Há, nos personagens e nas histórias intrincadas do filme, a decepção, a traição, o desalento sem saída, o absurdo, a tristeza imperiosa, e há também, sobretudo, a desilusão revelada que ao mesmo tempo liberta, pois é capaz de entregar alívio quando todas as bases de apoio desaparecem dos pés e o mergulho se torna uma condição, muito mais do que uma escolha. Há, nessa queda, nesse voo para baixo no abismo, qualquer coisa que afinal de contas libera, e nesse salto em direção ao nada deve haver também mais amor à vida do que os felizes são capazes de supor.