• Gabriel Soares

Netflix, Mubi, filmes estrangeiros e empatia.


O primeiro texto desse blog foi sobre a minha iniciação na pirataria de filmes pela internet, isso lá no começo dos anos 2000, quando a internet ficava rápida o suficiente para que eu fosse além do Soulseek e dos mp3 baixados e começasse a sonhar com os universos visuais entregues pelos torrents. Contei naquele texto que com o acesso aos filmes estrangeiros todo um novo mundo se abria diante dos meus olhos, e hoje não tenho dúvida que esse encontro na tela com diferentes sociedades pelos diversos continentes do planeta me ajudaram a formar uma consciência pluralista, me instigaram a sonhar com viagens e, principalmente, me ajudaram a desenvolver a empatia­. Não somente empatia no sentido de compaixão pela dor alheia, pelo sofrimento dos protagonistas encenados nos dramas, mas sobretudo a empatia no sentido de experimentar-me na posição do outro. A experiência de assistir a um filme, seja uma ficção ou um documentário, é sempre uma oportunidade de se deparar com um novo universo diferente daquele que estamos habituados a enxergar no dia-a-dia, no contato com o nosso mundo. Por isso eu gosto de pensar no ato de ver um filme sempre como um ato de saída, um movimento dialético que a consciência faz saindo de si em direção ao outro. Quando me sento no sofá para ver um filme eu estou saindo de mim por um momento: coloco-me em pausa no instante em que dou o play na tela. Deixo de atuar e viro espectador. Essa pausa existencial sempre me pareceu maravilhosa, viciante. Nos últimos dias embalei uma sequência de três filmes no Mubi, a plataforma de streaming que deve ser a mais óbvia para os piratas de filmes na internet. É como a seção de cinema estrangeiro das antigas locadoras. Acho que um dos maiores efeitos na formação de quem consome esse tipo de cinema é conseguir escapar da universalização imposta pelos filmes americanos – que sempre dominaram a TV aberta quando ela ainda era de tubo, e que hoje dominam as plataformas de streaming como a Netflix. Confesso que já pensei em cancelar a minha assinatura, mas ainda assisto os documentários que, na minha opinião, é o único gênero que a Netflix ainda não conseguiu estragar por completo. O Mubi tem como diferencial a curadoria e essa dinâmica do tic-tac dos filmes entrando e saindo que é o seu grande trunfo. Num mundo onde podemos ver quase tudo a qualquer momento é natural deixar de ver qualquer coisa e ser dominado pela eterna procrastinação. O filme com data de saída é o nudge (ver o livro do Richard Tahler) que todo cinéfilo procrastinador precisa para não deixar de assistir. É verdade que a Netflix tem tentado capilarizar as produções envolvendo diversos países, mas muda-se o local onde o filme é feito e o resultado parece ser sempre o mesmo lugar. Já o Mubi, pelo fato de se valer de um catálogo muito mais enxuto e de uma curadoria muito mais exclusiva, consegue entregar essa pluralidade buscada pelos amantes de filmes estrangeiros. Mais do que encontrar essas estranhezas, o espectador desse tipo de cinema espera também encontrar aquilo que o conecta, que lhe dá a sensação de reconhecimento, que fala de um outro mundo, mas ao mesmo tempo fala também do seu mundo, e isso pode acontecer, por exemplo, a um espectador brasileiro que assiste a um filme da Malásia.


Em The Tiger Factory, a protagonista é uma menina que trabalha num curral de reprodução de porcos, e tem como função guardar o sêmen dos machos em garrafinhas de plástico na geladeira. Numa atmosfera delirantemente úmida e quente, ela é obrigada a se relacionar com personagens corruptos, pequenos, degradantes, sem sonhos. Mas ela sonha, quer juntar dinheiro para escapar do seu país e ir morar no Japão. O filme se passa em outro continente, mas há essa conexão humana que nos conecta e que nos faz reconhecer no pesadelo dela o nosso próprio pesadelo.

Em Sivas, um menino turco acompanha seu irmão mais velho em rinhas de cachorros. No vilarejo em que vive, o espetáculo de dois cães se mordendo até o esgotamento e a morte é o passatempo predileto dos homens adultos. Um dia o cachorro que perdeu a rinha é deixado para morrer quando o espetáculo acaba. O menino – o protagonista do filme – fica ao lado do cachorro e promete que lhe cuidará caso ele sobreviva. Como não reconhecer no menino turco o herói que forjamos em imaginação, aquele que promete não se corromper mesmo com a baixeza pintando todos os horizontes da nossa retina?



No documentário de Barbet Schroeder sobre o ditador de Uganda, Idi Amin, vemos um troglodita exibir suas faculdades autoritárias para a câmera sempre com um sorriso sociopata no rosto. Como não enxergar no ditador africano o mesmo verme que nós, brasileiros, somos obrigados a engolir com o arroz e feijão de todo dia?