• Gabriel Soares

Existência Comprimida


Como escapar da ansiedade gerada pela profusão de informações disponíveis no mundo digital? Artistas, músicos, influenciadores, instagrammers, todos nós participamos dessa corrida frenética na geração de conteúdo para fisgar likes e visualizações. Meninas que saltam nos reels trocando de roupa num passe de mágica. Eu preciso ver isso? Claro que não. Mas acabo vendo porque é conteúdo que chama atenção, gera destaque, vai pro algoritmo, aparece primeiro no feed. Gravar vídeo selfies pra falar de livros tampouco me faz crer que isso é geração de conteúdo inteligente. Você também não precisa ver isso. Mas gravamos para chamar a sua atenção, para fazer você ouvir nossa música, criar um laço, gerar a sensação de pertencimento, para fazer você ir aos nossos shows, comprar nosso merchandising, aumentar nossos plays no Spotify. Haverá algo de profundidade possível nessas relações estabelecidas e praticadas nas redes? Os apps que mais passamos tempo hoje não existiam há alguns anos. Parece certo que esses mesmos serão substituídos em pouco tempo. Lembro dos cursos de datilografia. Tudo já começava a girar em torno do esquema dedos-teclas-papel. Depois veio a tela digital e aposentou de vez a máquina de escrever. Digitus vem do latim, contar com os dedos. Aprendi isso no livro “The Game”, do italiano Alessandro Baricco. A predominância do digital coloca hoje os dedos como a parte mais importante do corpo humano. Basta pensar na infinidade de potências que podem ser estimuladas com o simples toque de um dedo, desde o orgasmo alcançado ao botão que faz a bomba atômica explodir. O que nos difere dos chimpanzés, nossos primos mais próximos, é exatamente essa capacidade de extrapolar a utilidade da mão como apenas uma garra, uma ferramenta rústica de preensibilidade para segurar frutas e castanhas, tirar piolhos dos companheiros de espécie, espantar mosquitos ou trepar em árvores. Com o desenvolvimento das tarefas executadas pelos dedos humanos a coisa toda muda de patamar. Podemos pensar no primeiro dedo forjado de pincel para retratar os animais nas cavernas de Lascaux, os dedos segurando galhos feitos de espetos para cozinhar a carne crua, os dedos manipulando a pena que abriria um sem-fim de escrituras, os batuques rítmicos nas rodas da tribos primitivas, os dedos pressionando as teclas do piano nos salões da Europa no século 19, a existência se transformando em música que sempre vai depender dos dedos, nem que seja para apertar o play. Uma coleção de movimentos curtos e supersensíveis ao toque hoje abarcam uma série de tarefas cruciais para a vida contemporânea: deslize para cima para saber mais, clique duas vezes para curtir, mantenha o dedo pressionado para pausar a história, jogue pra cima para descartar, jogue para o lado esquerdo para apagar, dedo do meio e polegar juntos se afastando para dar zoom, pressione o botão do lado e o home para printar, escolha pincel para desenhar, texto para escrever, emoticon para exprimir um sentimento rápido. A revolução digital é a revolução dos dedos e da fragmentação das coisas. A lógica de fragmentar os arquivos brutos em pedaços menores e cada vez mais comprimidos – zip,rar. wav>mp3 – pode gerar a impressão de que estamos também fragmentando a nós mesmos. Entregamos nossas próprias frações em conteúdos ligeiros que desaparecem em 24 horas, em vídeos com minutos contados, em textos com limites de caracteres. Você atingiu o máximo disponível da sua capacidade, deseja comprar mais espaço na nuvem? O filósofo alemão Oswald Spengler estaria surpreso se vivesse em 2020 para constatar que a decadência do Ocidente ainda não se concretizara como ele imaginava, ao contrário, aceitamos a organicidade da cultura que nasce, tem seu momento de força, e então se extingue, porém encontramos a solução para resistir, pelo menos até o momento, com o eterno retorno, esse movimento constante de renascimento. É a ocupação diária dos meios de forma fragmentada para ser presença permanente nesse mundo digital onde tudo se desvanece em poucas horas. A única forma de não ser esquecido, de continuar sendo relevante, de ser notado, é nascer e morrer todo dia nos feeds, nos stories, nas playlists, nas manchetes dos sites que atualizam a cada segundo. É preciso estar ciente que o que vocês ­– fãs, admiradores, ouvintes – estão captando de nós é uma parte infinitesimal do nosso todo. Quanto a massa bruta das existências comprimidas acaba afetando a qualidade total dos conteúdos fragmentados nas redes? Eis uma pergunta para todos nós. Vale a pena lançar um álbum nos dias de hoje quando a sorte de um artista depende cada vez mais da entrada de um único single numa playlist bombada, mas que atualiza semanalmente? São perguntas que nós, músicos, certamente fazemos. Quão fragmentada a porção da nossa arte você aceita receber? Entregamos todos os dias pequenas partes de nós na tentativa de que o sentimento cósmico da insistência e da repetição acabe gerando, finalmente, uma imagem quimérica de completude.