• Gabriel Soares

Era o fracasso que me seduzia


Los artistas jamás se equivocan, ellos solamente fracasan”. Essa é a frase do livro de Julio Ramón Ribeyro que ficou martelando na minha cabeça durante muito tempo quando, no momento crucial da dúvida, pensava se valeria à pena seguir criando canções ainda. Mais do que a sensação de fracasso por não haver chegado num patamar artístico onde a palavra “reconhecimento” fizesse um sentido mais claro, eu enfrentava o dilema da criação sem armas retóricas consoladoras e procurava entender o que aquilo significava. O que faz alguém seguir um determinado caminho? Vou além, o que faz alguém construir horizontes para se entreter durante um caminho que ele decidiu traçar para si próprio e que antes não existia? Criar uma canção, assim como escrever um livro ou qualquer outra criação artística, é sempre um lançar-se em algo que ainda não existe, algo novo. O caminho do inédito – do espaço a ser preenchido – seduz. E seduz principalmente pelas infinitas possibilidades que se apresentam durante a criação. Esse momento criativo, aliás, é o instante quando o todo infinito começa a se desvanecer a partir da primeira tomada de decisão, da primeira escolha, do primeiro rumo, da primeira letra na página em branco, do primeiro acorde no ar que repousava em silêncio. Começar a criar é começar a colocar finitude no infinito. Dado esse passo inicial, o ser-criativo se vê lançado naquilo que agora se apresenta como obra a ser construída e que ele, o criador, será destino em si mesmo. Como não se sentir seduzido pelo ato da criação? Julio Ramón Ribyero, após deixar o Peru e se mudar para a Europa, escreve nas primeiras páginas do seu diário: “Qué será de mí? Puedo sacarme la lotería, puedo casarme, puedo naturalmente morirme. No puedo prever las circunstancias, pero una vez presentadas debo enfrentarlas e incorporarlas a mi vida. Vivir es resolver, es actuar, es apoderarse constantemente de uma fracción de la realidad”. Estar diante de uma obra iniciada é apoderar-se de uma fração da realidade, como diz Julio, é um entreter a si mesmo, antes de qualquer outra coisa, pois no momento da criação, o ser que cria é o ser que traça um ponto de ancoragem no rio sem margens da existência. Uma ilha flutuante como que começa a se formar sob seus pés. Com a cabeça fora das águas, o ser que antes somente submergia para o que estava escondido, agora pode colorir na retina o quadro da paisagem criadora. Uma criação, ao contrário da imersão que muitos imaginam, é antes uma emersão, ou seja, um emergir, um sair das profundezas, é fazer luz sobre algo antes oculto. Não é somente resolver, se apoderar de uma fração da realidade, como disse Julio Ribeyro, porque isso é viver. Criar uma obra exige mais do que isso. Não se trata de escolher os caminhos que já lhe são apresentados durante a existência, mas se trata, sobretudo, de inventar caminhos. Uma vez emergido diante da nova paisagem, uma vez com a cabeça fora das águas, só resta ao ser criador captar na retina aquilo que somente ele viu revelado antes de mergulhar outra vez para o universo submerso de onde surgiu. Sendo assim, criar é um contar aos outros aquilo que lhe foi intimamente revelado. É no retorno e no mergulho de volta para dentro que, aí sim, a criação se transforma em total imersão. Por ser uma experiência totalmente singular e individual, a obra revelada pelo criador para outras criaturas sofrerá, naturalmente, as mais diversas distorções e interpretações que, não encontrará outro caminho que não seja o fracasso. Um dos significados do verbo fracassar é fazer em pedaços, partilhar. Nesse sentido, fracassar seria nada mais que compartilhar a obra criada com os outros. Portanto, o fracasso que seduz seria não o desejo de criar, pois esse é sempre um ato solitário, individual, obstinado, uma viagem do ser consigo mesmo, mas, ao contrário, o fracasso que seduz é justamente o desejo de publicar, o desejo de lançar a obra na direção dos outros, entregar aos outros aquilo que antes era só seu, o desejo, finalmente, de destruir.

No vídeo, vemos Julio Ramón Ribeyro de volta a Lima, depois de mais de trinta anos vivendo na Europa. Durante todos esses anos ele manteve um diário que veio a ser publicado – na sua totalidade – postumamente sob o título de La Tentación del Fracaso.