• Gabriel Soares

El Superhombre


Charly Garcia pula do nono andar de um hotel em Mendoza. Uma câmera consegue captar o exato momento em que ele salta. Imediatamente vários repórteres invadem o hotel e correm para a área onde esperam encontrar o corpo esfacelado. Descobrem Charly brincando e dando braçadas na piscina. Ele tenta subir a escadinha para voltar ao seu quarto, mas os repórteres trancam a passagem e lhe apontam os microfones. Ele resiste em dar a entrevista e nada de costas para o meio da piscina. Depois aceita responder algumas perguntas quando volta para a beira. “Qual foi a sensação ao pular do nono andar?”, pergunta um jornalista. “O vazio, depois a água molhada.”, ele responde rindo, e os repórteres riem também. A história que se conta é que na noite anterior, depois de um show com Mercedes Sosa, ele foi para um bar e teve alguns contratempos depois que lhe jogaram um copo de uísque na cara. Foi parar na delegacia e o delegado intimou-lhe dizendo que ali todo cidadão era tratado de maneira igual. Charly então respondeu: “não sou qualquer um, eu sou um gênio”.


Não há como não lembrar de Nietzsche, que no seu último livro, "Ecce Homo", faz uma espécie de entrevista a si mesmo e se pergunta: “Por que sou tão inteligente? Por que escrevo tão bons livros?”. Essa mania de grandeza assusta os medíocres, faz tremer os fiéis da autocomiseração e confunde os que ainda estão amarrados à tradição cristã acostumada a ver na vaidade um pecado, diferente dos gregos que enxergavam nisso justamente o oposto: a maior virtude. “No existe sombra, no existe culpa, no existe cruz”. Aqui Charly Garcia sintetiza, em uma estrofe, a tríade libertadora de Nietzsche. Na música “Tu Amor”, fala sobre a relação que terminou sem melancolia, pois ainda existe um mundo ali na frente para quem não teme a solidão: “No voy a llorar si nadie me acompaña, no voy a dejar ni un camino sin andar, aunque sea el fin del amor”. Lembro da música em que Charly canta: “No voy en tren, voy en avión, no necesito a nadie, a nadie al rededor, porque no hay nadie que mi piel resista.” É fácil ver em Charly o “espírito-livre” que seguiu o conselho de Zaratustra quando ele diz: “Foge para a tua solidão meu amigo! Viveste tempo demais perto dos pequenos.” Não sei se Charly é leitor de Nietzsche, apostaria que sim. Há um tipo de beleza muito semelhante na arte/filosofia dos dois que extrapola a coincidência dos bigodes. Poucos sabem, mas Nietzsche também era pianista, inclusive às vezes se arriscava no piano em Bayreuth, na casa de Wagner, e parecia não se intimidar ao tocar na frente do maior músico do planeta na sua época. O que diria Nietzsche da performance de Charly debaixo de chuva no Quilmes Rock (2004) em Buenos Aires, correndo pelo palco e golpeando as dezenas de teclados espalhados como se fosse ele uma orquestra em si mesmo? Essa tentativa de avançar sobre os limites do próprio ser, de multiplicar-se, de encarar a potência oferecida pela vida e sentir a vontade de traçar na existência um raio cósmico singular, de ser único, tudo isso faz parte das qualidades mais exaltadas por Nietzsche. É impossível ver as performances de Charly Garcia e não encontrar, por exemplo, a imagem do super-homem. “O mundo não se tornou perfeito nesse instante? Assim falou Zaratustra“. Na canção "De mí", Charly diz: "Cuando estes mal, cuando estes solo. Cuando ya estes cansado de llorar, no te olvides de mi, porque se que te puedo estimular!” Sempre que escuto qualquer coisa sua, não importa se são músicas da carreira solo, do Serú Girán, do Sui Generis, do La Máquina de Hacer Pájaros, sempre acontece em mim o efeito exato da leitura de qualquer livro de Nietzsche. Tenho agora diante de mim vários dos seus livros que peguei para folhear enquanto escrevo esse texto, e qualquer um dos meus grifos – não importa em qual livro seja – consegue injetar em mim essa espécie de alegria feroz, um movimento interior que me enche de ânimo, de disposição, de coragem, um respeito comigo mesmo que me autoriza a valorizar-me. Pode parecer que eu soe um pouco exagerado, mas essa hipérbole é parte do fenômeno experimentado por qualquer um capaz de enxergar-se como um espírito-livre. No livro “O Caso Wagner”, Nietzsche alerta sobre o perigo de levantar altar aos ídolos. “Os grandes homens, tal como são venerados, são pequenas ficções ruins feitas posteriormente”. No meu caso, eu poderia dizer que não venero nenhum dos dois, nem Charly nem Nietzsche. Não gosto desse verbo, venerar. Extraio essa potência compartida de cada um, e tento fazer de mim mesmo uma experiência que se pudesse desejar o eterno retorno. No “Crepúsculo dos Ídolos” encontramos a frase: “Na arte, o ser humano frui a si mesmo enquanto perfeição.” Sempre que preciso de estímulo, quando, às vezes, duvido de mim, encontro nesses dois o antídoto contra aquilo que antes me impedia de dançar. “No, no puedo ser feliz, con tanta gente hablando, hablando a mi al rededor. Oh, dame tu amor a mi, te estoy hablando, hablando, hablando a tu corazón!” A primeira parte de Zaratustra termina assim: “Mortos estão todos os deuses: agora queremos que viva o super-homem”. No ano passado Pedro Aznar reuniu Charly Garcia e David Lebón para transmitir uma live. Eles iriam escutar a remasterização do segundo disco do Serú Girán, “La Grasa de las Capitales”. Charly está sentado com um copo de uísque apoiado no joelho, tem voz de cachorro velho e quase não consigo entender o que diz. De repente pede para que todos se calem, quer prestar atenção na segunda faixa do disco que ele mesmo compôs, e depois de alguns minutos em silêncio, diz em alto e bom som, maravilhado com a própria criação: “que temázo che! (que música!)”.