• Gabriel Soares

Cumple do Cerati, Ema de Larraín e cinema neopentecostal


Gustavo Cerati faria 61 anos esse mês. Não há uma semana sequer em que passo sem escutar alguma música sua. “Esta canción es droga para mi”. Sempre consigo extrair um estímulo ao ouvir seu som, uma confirmação do caminho traçado: fazer música. Deixo-me envolver pelo universo fantasmagórico e instigante que toda sua obra é capaz de entregar. Conheço pouca gente no Brasil que escuta Cerati, aliás, conheço pouca gente que sabe de quem estou falando. Conto nos dedos. Hoje assisti de novo no Youtube o show do retorno do Soda Stereo no estádio do River. Cerati toca e canta ainda melhor ao vivo do que nos discos de estúdio, está comprovado. Nunca subestimei o problema que fronteira da língua, apesar de tão estreita, é capaz de gerar. É uma pena que esse nome, Cerati, aqui no Brasil esteja mais associado a uma marca de mortadela do que ao músico argentino. Esse abismo filológico e sintático é curioso e desolador ao mesmo tempo. Eu também não tinha ideia do que seu nome significava no tempo em que éramos contemporâneos. Quando ele morreu eu estava em Santiago, ainda não sabia falar espanhol, e vi a minha amiga Carol entrar em parafuso quando soube da notícia. Ela tentou explicar o que ele representava para toda a música latina, e porque ela e os jovens do Chile estavam chorando a morte de um argentino. Mas não fui capaz de compreender. Naquela época eu estava ainda aprendendo a me reconhecer como latino, pensava que fosse só brasileiro. Levou algum tempo até eu conseguir compreender o tamanho desse artista e para me tornar latino-americano, e como todo descobrimento do que é genial, senti-me um adolescente frente a nova verdade que fazia todo o planeta girar em perfeito sentido. A última vez que me apaixonei escutei Beautiful no repeat durante quase todo o caminho de Santiago a Puerto Montt. De alguma maneira nossas vidas se conectam com o Chile. Cerati se casou com a chilena Cecília Amenabar e morou no país por vários anos. Casualidades de la vida. Afinal, que pode haver de mais embriagador do que levitar sob o vento do acaso e saber apreender todos os eflúvios que o passeio existencial é capaz de oferecer ao nosso nariz?


Por uma dessas casualidades assisti ontem à noite o novo filme do chileno Pablo Larraín. A primeira coisa que pensei foi que conheço aqueles bailarines. Ema faz Valparaíso parecer mais cool que Berlim, e isso me dá orgulho. Talvez me sinta demasiado latino hoje em dia. Se não fosse o roteiro, que de tão ruim acaba sendo indefensável, estaríamos hoje chamando seu novo filme de clássico imediato do cinema sul-americano. Ainda assim, suas cores são deslumbrantes, a atuação de Mariana di Girolamo consegue ser sedutora a ponto de fazer esquecer a própria falta de história, e a trilha sonora de Nicolas Jaar lembra que o nosso continente não precisa pedir benção para nenhum gringo, ainda que a direção de Larraín pareça flertar com as lentes de Gaspar Noé, à propósito, nascido na Argentina. Pela primeira vez gostei de reggaeaton, confesso.

E vi também o filme Divino Amor, que está em cartaz no Mubi. Já tinha gostado de Boi Neon, e me deliciei agora com o novo longa de Gabriel Mascaro que, na minha opinião, é a melhor provocação do cinema brasileiro contra o autoritarismo neopentecostal que avança sobre nosso país. Tento lembrar de outro filme brasileiro com afronta parecida, mas só me vem à cabeça Das Tripas Coração (1982), de Ana Carolina, com Antônio Fagundes fazendo o papel de diretor promíscuo, e Christiane Torloni como diva transgressora de alunos e alunas. Se fôssemos todos cinéfilos não precisaríamos nunca mais rezar.