• Gabriel Soares

Ansiedade e barbárie estética



Passei sete dias praticamente conectado o tempo inteiro, quer dizer, o tempo inteiro que eu estava acordado. Conseguia ler umas dez, quinze páginas de algum livro, mas logo voltava a checar as redes. Mandava um e-mail, respondia uma mensagem, lia uma notícia, e logo minha atenção se voltava para a nova música que tinha acabado de sair. Quantos plays já temos? Quantos views? Quantos comments? Quantos blogs já deram o lançamento? Quantas menções? Entramos em alguma playlist editorial? Cada check que eu imaginava gastar só alguns segundos duravam minutos, horas. Eu era praticamente engolido para esse universo toda vez que abria o celular ou o computador. Responder os comentários no Instagram, retuitar os tweets que mencionavam a banda, replicar stories, disparar corações e estrelas em formato emoticon, taguear perfis, dar reply em curtidas. Semana de lançamento é assim mesmo, mas alguma coisa mudou desde a última vez que lançamos algo, isso já faz algum tempo, foi em 2017, três anos que parecem décadas na velocidade em que avança o mundo digital. Nada se compara a essa ferramenta nova do Spotify feita especialmente para os artistas, o Spotify for Artists. Durante os primeiros sete dias de lançamento o artista pode acompanhar a performance da faixa lançada em real time, ou seja, o app mostra em tempo real quantas pessoas estão ouvindo a sua música naquele exato momento, e mais, durante a primeira semana de lançamento da sua nova música, o app libera a contagem de streams também ao vivo. Que artista consegue simplesmente ignorar essas amostras que são atualizadas a cada segundo pelo aplicativo? Em três dias ficou óbvio pra mim que eu deveria impor-me um limite, do contrário a ansiedade iria me dominar por completo. Fui obrigado a reduzir meus shots diários de espresso para uma dose única durante a manhã, isso se eu não quisesse sentir falta de ar durante a noite. Eu não me considero uma pessoa ansiosa, sou um leitor profissional, estou acostumado a passar horas só com um livro nas mãos, mas o que estava acontecendo de errado nessa semana? Eu não conseguia ler praticamente nada, parar pra ver um filme estava fora de questão, dedicar-me a outros assuntos tampouco. Eu sabia que a primeira semana de lançamento é muito importante, estar presente e ativo em todos os rincões da rede é algo crucial para o sucesso do lançamento. E quando digo sucesso não me refiro a um número X de alcance, mas simplesmente no êxito de conseguir fazer a música chegar nos lugares certos e nas pessoas certas na hora certa. Só que mesmo no momento que deveria ser de celebração e desfrute, quando a música veio ao ar na meia-noite da quinta-feira, o primeiro play dado na faixa finalmente exposta ao mundo logo se transformava numa corrida insana por resultados. Primeiro é saber se a sua faixa entrou em alguma playlist editorial das plataformas de streaming: isso vai definir grande parte de quem vai ouvir sua música e de quem nunca vai ouvir. Por mais que as condições de upload sejam democráticas – mais de 40 mil faixas inéditas são lançadas todos os dias – o range que a faixa será capaz de viajar depende de uma dinâmica complexa e uma disputa feroz. A começar pelo espaço dentro das playlists com mais seguidores. O ser humano é um animal que compara, é natural da nossa espécie. Muito dos nossos desejos que cremos autênticos são nada mais que aquilo que vimos no vizinho e queremos ter, no nosso caso, aquilo que uma banda indie parecida fez e que você também precisa fazer. As plataformas sabem disso e esse é o motivo de termos plays que ficam visíveis para todo o público. Um artista que tem apenas um ouvinte mensal aparecendo no seu perfil é um artista solitário, o ouvinte dele mesmo. E quem diz que não quer ouvintes não tem nenhum motivo para lançar uma música. Quem lança precisa divulgar, correr atrás dos plays. E isso é muito mais difícil do que fazer uma música, mais complicado até mesmo do que gravar, especialmente nos dias de hoje com a facilidade de plug-ins e simuladores. A estratégia de lançamento deve começar meses antes de a música ir ao ar, é o que ensinam todos os manuais disponíveis no Google. No caso do Spotify, é preciso fazer o famoso pitch, que é subir a faixa com semanas de antecedência para a audição dos curadores da plataforma. Você pode lançar música em qualquer dia da semana, mas já reparou que a maioria dos lançamentos agora ficam condensados na sexta-feira? É quando o Spotify atualiza as suas principais playlists. Eu não estou reclamando da maneira que o jogo é jogado, fiz o que manda a cartilha e de certa forma fui recompensado com a adição da música em ótimas listas. Mas e a minha ansiedade? O sentimento de entrar numa playlist desejada acaba se tornando um alívio, muito mais do que uma celebração. E não acho que esse sentimento aconteça apenas com artistas independentes, ao contrário, quanto maior o patamar do artista, maior a comparação com números de outros artistas, maior a sede de atingir as paradas e consequentemente, maior risco de frustração. Ninguém faz música para ser consumido por esse sentimento sufocante que é a ansiedade, ao contrário, mas a realidade é que o prazer da criação de uma música pode estar se tornando uma obrigação antinatural. Ao compreender a dinâmica das plataformas de streaming que favorece os artistas que lançam músicas com maior frequência, não estaríamos nós, artistas, pressionados a cumprir uma agenda de lançamentos somente para não ficar atrás nos números? Não é preciso nem gastar argumentação para dizer que o resultado dessa corrida maluca terá como reflexo uma queda da autenticidade, da verdade, e especialmente, da qualidade mesmo das canções: um flerte perigoso com a barbárie estética da qual falava Adorno. Featurings de conveniência, produções apressadas, poesia fake em busca de plays, de views, de comments, de streams. É pra isso que estamos fazendo música hoje? Não acredito. Tenho certeza que a maioria dos artistas faz música porque tem uma sensibilidade especial, e precisa expandir essa forma de apreender o mundo e a realidade através desse ato maravilhoso que é o da criação artística. Não sou partidário do boicote, do rompimento das regras do jogo que aceitamos jogar, por outro lado, estou certo de que é preciso ao menos criar um mecanismo de defesa, para que tenhamos as condições de nos resguardar do sentimento de fracasso que é imposto quase como uma ceifeira sobre as nossas cabeças todos os dias. É preciso uma casca interior que nos proteja contra a sensação de derrota a cada post que não teve o engajamento esperado, a cada like que não foi dado, a cada matéria que nunca entrou no blog mais hypado, a cada play que nunca existiu. É preciso, mais do que nunca, de tempo. Tempo para pensar e repensar nossa condição de artista e de ser humano. Eu só consegui voltar à essa conclusão óbvia quando me afastei um pouco das redes, depois de cumprir minha agenda semanal ­– que foi necessária, e se mostrou também eficiente –, quando pude retomar as duzentas páginas que me faltavam de Os Miseráveis de Victor Hugo. Pela primeira vez desde o lançamento consegui esquecer um pouco a nova música, podia deixá-la descansar agora. Depois de uma hora com o livro na mão minha cabeça já não me lembrava de 2020, toda a minha atenção estava voltada para o séc 19 e os pensamentos de Cosette, apaixonada por Marius, para quem o simples passeio nos jardins de Luxemburgo representava a mais alta felicidade que se podia imaginar. Jean Valjean estava com a menina no parque e parou para ler um livro, enquanto Cosette flertava com Marius, sentado no banco em frente. O silêncio do mundo revelava outra vez novos sons, os passarinhos cantavam suas tramas, as nuvens andavam no céu criando desenhos, o ritmo da vida retornava ao seu lugar natural, sem pressa. Os olhares de Marius e Cosette diziam eu te amo sem precisar abrir a boca. Minha ansiedade tinha ido embora, ou apenas me esqueci dela. O tempo sagrado havia voltado para mim.