• Gabriel Soares

A luta dura do músico-influencer


Que músico hoje – que tenha um pouco de vergonha na cara – não se sente constrangido diante da pressão diária por geração de “conteúdo”? Passei uma semana sem subir fotos e stories no Instagram, sem repostar marcações de blogs e ouvintes/fãs, e sem dar um like sequer em alguma postagem que apareceu no meu feed. A sensação é de alívio, mas ao mesmo tempo sinto que serei punido pelos algoritmos. A necessidade da presença ostensiva nas redes é um jogo complicado que nós, "artistas", aceitamos participar. Conseguir chamar a atenção no meio da superabundância de posts que inundam os celulares se tornou o maior desafio do músico-influencer. No último post eu exibo uma selfie sem camisa de frente para a praia de Floripa. Tive o cuidado de redimensionar o arquivo e fiz um corte preciso acima do meu mamilo direito que aparecia, na foto original, com coloração roxo-mórbido e o bico levemente apontado para o mar gelado. Quem reparasse no ombro que segura a câmera poderia observar um fenômeno que os dermatologistas chamam de queratose pilar, o que nesse caso era somente efeito do vento frio que envolvia meu torso desnudo naquela tarde de inverno catarinense. Pronto. Com a carta na manga da selfie usada, depois de uma semana de sumiço na rede social, os algoritmos novamente me reposicionariam no rolo compressor das telas cujos dedos cada vez mais ágeis poderiam engatilhar um doubleclick e me brindar com um merecido like. O que isso tem a ver com a música que eu faço? Ah, mas os fãs querem conhecer a intimidade do artista. Até que ponto? Confesso que ainda piso em falso sobre a linha tênue que separa o post ridículo daquele que alguns poderiam chamar de autêntico. Não vejo stories a não ser os que marcam o perfil da banda, mas às vezes faço deslizar o dedo no feed por alguns segundos até que meus olhos ofusquem a tela de retina e eu me sinta mareado. Outro dia apareceu um vídeo de um amigo (nunca vi na vida, mas os dois se seguem) em que ele segura o celular no modo vertical e dá bom dia ao seus “lindos e lindas” do perfil como se estivesse falando com seu afilhado de 9 meses de idade no carrinho de bebê. Reparo nas mexas brancas do cabelo já parco que ele talvez tenha esquecido de tingir, e nas linhas de expressão que nem o filtro de face tuning usado deu conta de suavizar. Tive pena dele. Tive pena de mim. Tive pena de nós, artistas trintões, outros já quarentões, que depois de décadas fazendo apenas música agora se veem nessa situação vexatória de ainda estar correndo atrás daquilo que os especialistas dos selos, gravadoras, casas de show, jornalistas hypados, marcas de tênis/roupas/cervejas interessadas em associação de imagem com a galera descolada, curadores de festivais, analistas de Chartmetric e vendedores de curso online sobre “como fazer sucesso na era digital” chamam de público. Pela necessidade angustiante de manter o público viciado nos nossos conteúdos, cada dia damos mais, mostramos mais, posamos e clicamos mais e quando realmente não temos mais nada novo pra mostrar, o que nos resta às vezes é fazer o exibicionismo da carcaça já cansada, do rosto sem maquiagem que, no pior dos casos, pode gerar pena e, quem sabe, uns likes dos lindos e das lindas que nos seguem. Quisera eu ter a coragem de Zaratustra, que quando percebe estar sendo seguido pela fila de animais transformados em discípulos levanta o cajado e enxota os seguidores. Mas estaria eu disposto a seguir o conselho de Nietzsche e assinar o meu suicídio artístico na era dos influencers? Eu, que senti o coração bater num compasso alterado quando o perfil da minha banda amanheceu com o cobiçado selinho azul? Se os seguidores conhecessem a luta que é tudo isso aqui, prefeririam ficar realmente só com a nossa música. Seria melhor pra todo mundo.