• Gabriel Soares

A Última Ceia em Paris


Passei a última ceia de Natal jantando sozinho num restaurante em Paris. Não quis fazer reserva em nenhum lugar. Saí flanando com os meus fones que eu só tirava do ouvido quando chegava na porta dos restaurantes. Quatro me recusaram por não ter reserva, até que o quinto me aceitou. O cardápio ficava dentro de uma edição do livro O Conde de Monte Cristo. A minha ceia estava arranjada com Alexandre Dumas. Matei a garrafa de Beaujolais antes que chegasse a sobremesa, e quando o garçom percebeu a minha taça vazia foi logo me oferecendo um conhaque, cortesia da casa, ele disse. Era o meu presente natalino. Quando saí do restaurante não conseguia dar play na música nova da banda que estávamos trabalhando há meses. Queria ouvir mais uma vez pra saber se ainda tinha alguma coisa para alterar, algo a mais que a música pudesse oferecer, qualquer coisa escondida. Já fazia um ano que eu mantinha essa rotina de audições. Ouvia com os olhos abertos, com os olhos fechados, ouvia bêbado, ouvia são, de manhã, à noite, à tarde. A internet estava lenta e não carregava a última correção de mixagem que tinha chegado no meu e-mail. Dei de cara com a estátua do Molière. Vi que o portão de acesso ao pátio do Louvre estava aberto e fui até lá. Quando estava bem no meio do quadrilátero do museu a música começou a tocar. Me assustei porque não esperava que a internet carregasse justo naquele instante, tinha esquecido que ainda estava com os fones nos ouvidos. Eu estava cercado pela construção dos fundos do museu que entregava uma acústica perfeita para a minha audição. Senti outra vez o gosto do conhaque na boca e um relaxamento estremecer todo o meu corpo. Tudo o que precisei fazer foi abrir os braços e jogar meu pescoço para trás na certeza de que ninguém me observava, e se também me vissem naquele momento eu já não me importava. Havia ultrapassado o grau de embriaguez que autorizava o gozo da consciência-de-si sem nenhuma vergonha. Tive a certeza que a música estava finalmente pronta olhando para o céu de Paris. Não havia nenhuma estrela mas as nuvens deixavam o horizonte pintado de um lilás quase púrpura, e isso me inebriava ainda mais. Lembrei de uma frase de André Gide. “Que todo momento te possa ser embriagador!” Quando o finzinho de sintetizador encerrava a canção abri os olhos e vi um segurança gritando na minha frente. Não precisei tirar os fones pra ouvir o que ele dizia. Allez monsieur! Allez! Soltei um riso insolente e quis dizer “bom Natal pra você também”, mas esqueci como falava isso em francês. Fui embora. Cruzando a Pont-Neuf lembrei que ainda não tinha ido ao banheiro nenhuma vez. Olhei lá embaixo a passarela que beira o Sena completamente deserta. Quem sabe eu encontrasse Denis Lavant e Juliette Binoche.